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O Combate na Prática das Artes Marciais Históricas Europeias: Pouca ou Muita Proteção?

O momento do combate é o pico da nossa prática. É quando a adrenalina flui, e é lá que testamos se nossas técnicas estão realmente afiadas, precisas e, principalmente, funcionais. Mas, nesse ambiente tenso e caótico, precisamos utilizar equipamentos de proteção. A questão é: será que menos é mais ou o quanto de proteção é necessário?


Podemos iniciar a discussão dividindo os combates em duas categorias: 1) leves e 2) pesados; ou ainda, 1) sem armadura e 2) com armadura. Nos combates leves/sem armadura, buscamos usar o mínimo de equipamentos para simular um contexto de duelo sem armadura. Já nos combates pesados/com armadura, vestimos armaduras completas.


Os equipamentos de proteção para ambos os tipos de combate:

  1. Combate leve/sem armadura: jaqueta simples, luvas leves ou acolchoadas, gorjal e máscara.

  2. Armadura completa: malha e placas de aço.




Autenticidade na Prática

A vantagem desses dois contextos está em como eles se relacionam com a arte marcial ensinada e praticada tradicionalmente. Muitos tratados medievais e renascentistas mostram esgrimistas usando camisas, coletes ou gambesons, geralmente com luvas leves, seja com armas de uma ou duas mãos. Com frequência, também mostram o combate em armaduras completas.


Pietro Monte, em seu manual de 1509, descreve duas formas distintas de duelo. Ele desdenhava da nova tendência de resolver duelos usando camisas de manga, quando seria mais apropriado duelos com armaduras. A nova tendência em duelar sem armadura, com espadas de duas mãos, de uma mão, e em mais tarde com rapieiras, era visto como mais justo, ousado e corajoso do que lutar em armadura; porém, menos nobre.


Apreciação do Contraste

Eu aprecio os dois argumentos, especialmente na perspectiva atual. Adoro a mobilidade, a sutileza e a proximidade das armas e do impacto no combate leve/sem armadura. E aprecio a natureza visceral e o desafio tático e físico de lutar em armadura. É importante contrastar essas duas formas: uma em que o corpo está vulnerável, e a técnica é crucial para a segurança; e a outra em que a armadura é uma ferramenta estratégica. Aqui, falo da esgrima em armadura, tratando-a como tal, ela desvia golpes e torna o combate mais intrincado, com alavancas e agarrões. Buscamos pequenas brechas na armadura para desferir estocadas.


Equipamento Pesado vs. Equipamento Leve

Fiore dei Liberi nos conta em seu tratado de 1409: (vou parafrasear) "por inveja, alguns Mestres me desafiaram ao combate com espadas afiadas, vestindo uma jaqueta e sem qualquer outro equipamento de proteção, a não ser um par de luvas [...] tive que lutar em lugares desconhecidos, sem parentes ou amigos para me ajudar, confiando em ninguém, exceto Deus, minha arte, eu mesmo e minha espada."


Um excelente exemplo histórica de equipamento de proteção leve. Analisando o que ele diz, podemos inferir que a qualidade da sua arte era suficiente para protegê-lo, sem depender de manoplas ou peitoral de aço. Ele se referia a uma esgrima que respeitava a letalidade das lâminas, a importância da prudência e audácia (virtudes de Fiore) e a realidade do combate marcial.


Certamente, isso difere do que vemos nos torneios modernos, com diversos equipamentos de proteção. Alguns chamam esse excesso de equipamentos, de "esgrima robocop".


Conflito Mental e Intensidade

Quando os praticantes modernos usam muito equipamento de proteção e tentam simular um combate sem armadura, criam um conflito mental: golpes que poderiam causar dano real, se desferidos com espadas afiadas e roupas leves, quase não são sentidos quando se usa equipamento pesado. A intensidade do combate aumenta, já que os esgrimistas se sentem confortáveis em atacar. Apesar de tentarem manter a mentalidade "sem armadura", a sensação de impunidade aumenta, levando a movimentos imprudentes. Não é surpreendente ver tantos lutadores projetando as mãos à frente da espada ou golpes duplos.


Intensidade Reduzida e Sensação de Fragilidade

Com menos equipamento de proteção, a intensidade diminui. Sentimo-nos mais soltos, cientes da fragilidade. Essa sensação se aproxima mais do ambiente marcial sem armadura, mas também carrega mais riscos.


A Precisão da Prática

Gosto dessa abordagem: em vez de depender do equipamento de proteção, precisamos treinar com precisão, intenção, cuidado e concentração. Isso é vital para manter a conexão marcial com a arte. Há uma compreensão explícita da letalidade da arte que praticamos e da responsabilidade pela segurança pessoal e do colega. É uma constante lembrança de que, num combate real, não haverá equipamento de proteção para nos salvar de erros.


Adaptação à Prática

Trabalhamos essas ideias em nossas aulas de arte marcial europeia. Usamos combates sem armadura ou com pouco equipamento de proteção como parte central da nossa prática. Começamos devagar, mas, à medida que adquirimos experiência e habilidade, aumentamos a velocidade e a intensidade, mantendo a segurança, mesmo com pouco equipamento.


Reflexão sobre Artefatos e Imprudências

Cada abordagem tem suas próprias nuances. Lutar com menos equipamento pode levar a uma falsa impressão da força e velocidade das espadas, além de nos expor a imprudências do oponente. Há momentos em que não atacamos com toda a força para proteger nosso colega. Isso pode levar a uma falsa impressão do quão forte e quão rápido uma espada pode golpear ou do dano que ela pode causar. E isso é verdade. Ganha-se de um lado, perde-se do outro. Em um ambiente podemos lutar como se nossos corpos fossem invencíveis, no outro, como se nossas espadas fossem.


Falsa Sensação de Segurança

Com muito equipamento, há uma preocupação com a falsa sensação de segurança. Praticantes podem sofrer lesões graves, apesar da proteção aparente. A espada é um multiplicador de força, e é difícil criar uma proteção que resista a seu potencial máximo. Gosto de acreditar que meu colega não confia apenas no meu equipamento para garantir a minha segurança.


Escolha e Abstração na Prática

Não há uma maneira "certa" de praticar esgrima. Todas as abordagens, exceto aquela em que se mata o oponente, são abstrações. Escolha aquela que melhor atenda aos seus objetivos, seja segura e o mantenha praticando efetivamente.


E sua prática de combate, como é?


Deixe nos comentários a rotina de combate do seu grupo e a forma que você prefere. Vamos conversar!

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