Combate Leve? Menos Proteção no Sparring

Atualizado: 21 de fev.

O combate (sparring) é o ápice da nossa prática. É durante um combate, quando a adrenalina sobe, que saberemos se as nossas técnicas estão acuradas, precisas e, principalmente, funcionais. Porém, justamente por ser um ambiente tenso e caótico, precisamos usar equipamentos de proteção. E aí surge a pergunta: pouca ou muita proteção?


Bem, podemos começar a discussão dividindo em duas categorias de combate: 1) leve e 2) pesado; ou 1) sem armadura e 2) com armadura. No combate leve/sem armadura, buscamos utilizar o mínimo possível de equipamentos de proteção para simular um ambiente sem armadura. No combate pesado/com armadura, vestimos armadura completa.


Os equipamentos de proteção para os dois tipos de combate:

  1. Jaqueta simples, luvas leves ou acolchoadas, gorjal e máscara.

  2. Armadura completa: malha e placas de aço.





Autenticidade

O aspecto positivo desses dois ambientes é como eles relacionam a arte marcial que ensinamos com aquela que era praticada tradicionalmente. Muitos tratados de combate medievais e renascentistas mostram os esgrimistas com camisas, coletes ou gambesons, geralmente com luvas leves, seja com armas de duas mãos, seja de uma mão. E, frequentemente, também mostram o combate em armadura completa.


Pietro Monte, em seu manual de 1509, nos dá uma luz sobre duas formas distintas de duelo. Lá, ele fala com desdém da nova tendência de resolver duelos vestindo camisas de mangas, quando eles seriam mais apropriadamente resolvidos em armaduras. Isso, porque duelar com espada longa ou espada singela, e em seguida com rapieira, sem armadura, era visto como mais justo, além de mais ousado e corajoso do que em armadura.


Acho os dois argumentos interessantes, pelo menos em uma perspectiva moderna. Adoro a mobilidade, finesse e a sensação de estar bem perto das armas e do impacto em combate leve (sem armadura). E acho legal a natureza visceral, bem como o desafio tático e físico de lutar em armadura. É importante o contraste entre essas duas formas: uma em que o corpo está vulnerável e a técnica deve garantir a segurança do esgrimista; e a outra em que a armadura e a proteção são ferramentas estratégicas por si só. Aqui eu falo de esgrima em armadura: tratar a armadura como armadura. Ela desvia os golpes e torna o combate mais intrincado, com muita alavanca e agarrões. Nesse tipo de combate buscamos as pequenas brechas na armadura para entrar com estocadas.


Robocop - Equipamento Pesado Moderno

Parafraseando o que Fiore dei Liberi nos diz em seu tratado de 1409: "por pura inveja, alguns Mestres me desafiaram ao combate com espadas afiadas, vestindo uma jaqueta e sem qualquer outro equipamento de proteção, a não ser um par de luvas". Se isso não é combate leve, não sei o que é; e olha que era com espadas afiadas. Analisando o que ele nos diz, podemos inferir que a qualidade da sua arte era suficiente para o proteger sem precisar depender de qualquer manopla ou peitoral de aço. Ele se refere a um tipo de esgrima que respeita a letalidade das lâminas, a importância de tanto prudência quanto audácia (duas virtudes de Fiore) e a realidade de um combate marcial.


Certamente, isso é muito diferente do que vemos nos ambientes de torneios modernos com vários equipamentos de proteção. Algumas pessoas chamam esse exagero em equipamentos de proteção de "esgrima robocop".


Quando o combatente moderno coloca seu equipamento de proteção e finge estar sem armadura, ele cria um conflito mental: golpes que poderiam quase decepar um braço, se feito com uma espada afiada e roupas leves, quase não são sentidos quando vestindo um equipamento pesado. A intensidade do combate se eleva, pois os combatentes se sentem confortáveis em acertar o oponente e, mesmo que tentem manter um pensamento "sem armadura", a impunidade começa a imperar, pois os esgrimistas podem "soltar a mão". Não é surpresa ver tantos lutadores projetando as mãos à frente da espada, golpes duplos e situações similares acontecendo com tanta frequência.


Equipamento Leve

Já com equipamentos leves, certamente essa intensidade diminui. Sentimos que estamos mais soltos e mais cientes de nossa fragilidade. A sensação é mais próxima ao ambiente marcial sem armadura, mas também tem mais riscos.


Essa parte eu gosto: em vez de depender de equipamento de proteção, eu e meu oponente precisamos treinar com precisão, intenção, cuidado e com maior concentração. Considero isso de vital importância para manter a conexão marcial com a arte. Existe uma compreensão explicita da letalidade da arte que estamos treinando e a responsabilidade que temos pela nossa segurança e de nosso colega. É uma forma constante de lembrar e reconhecer que numa luta real não haverá equipamento de proteção para preservar nossa vida caso cometamos algum erro.


Trazemos essas ideias para a nossa prática e aulas de arte marcial europeia. Usamos exercícios e combate sem armadura e com pouco equipamento de proteção como parte central da nossa prática. Começamos devagar, mas conforme construímos experiência e habilidade, aumentamos a velocidade e a intensidade dos combates, embora com pouco equipamento de proteção e mantendo a segurança.


Artefatos & Imprecisões

Cada método/ambiente de esgrima apresenta seus próprios artefatos e imprecisões. Quando lutamos com menos equipamentos, há momentos em que não geramos tanta potência nos golpes contra a defesa do oponente; não com a mesma intenção que faríamos a toda velocidade, em prol da segurança do colega. Podemos não golpear tão profundamente contra uma abertura ou nos expor às imprudências do oponente. Isso pode levar a uma falsa impressão do quão forte e quão rápido uma espada pode golpear ou o dano que ela pode causar. E isso é verdade. Ganha-se de um lado, perde-se do outro. Em um ambiente podemos lutar como se nossos corpos fossem invencíveis, no outro, como se a nossa espada fosse.


Falsa Proteção

Uma grande preocupação que temos com muito equipamento de proteção é a falsa sensação de segurança. Vemos muitos praticantes de HEMA com dedos quebrados, máscaras amaçadas e casos de traumatismos cranianos, simplesmente porque o colega pensou que o equipamento de proteção era invencível.


Espadas São Multiplicadores de Força

A verdade é que espadas são multiplicadores de força. É difícil criar uma proteção que resista a suas capacidades máximas. Gosto de acreditar que meu colega não está confiando apenas no meu equipamento de proteção para garantir minha segurança.


Obviamente, estamos perdendo um certo nível de intensidade ao não lutar na nossa máxima velocidade e força. Mas se formos pesquisar os comentários históricos, os mestres sempre tendiam a ter termos pejorativos para esses que lutavam dessa forma, chamando-os de "bufalos" ou "homens bestiais". Esses arquétipos não me inspiram. Prefiro Fiore e o seu gambeson, luvas e a qualidade da sua arte.


Qual a Melhor Forma?

No seu manual do século XVI, Angelo Viggiani nos diz para praticar com espada afiadas, assim nunca perdemos o respeito pela arma. Seu contemporâneo, Antonio Manciolino, diz o contrário: espadas afiadas nos fazem temer a arma, e que espadas sem fio são necessária para uma prática mais solta e autêntica. Ambos os mestres têm os mesmos objetivos para seus alunos: praticar de uma forma que se mantenha uma conexão com o aspecto marcial da arte.


Não há uma forma "certa" de se praticar esgrima. Todas as formas, exceto aquela em que você de fato mate seu oponente, são formas de abstração. Então escolha aquela que melhor servir aos seus objetivos, for segura e o mantiver praticando de forma efetiva e por bastante tempo.


E a sua prática de combate como é?


Deixe nos comentários como é a rotina de combate do seu grupo, qual forma de combate você prefere.