Rapieira

A rapieira é uma espada de lâmina fina e longa, adequada particularmente para a estocada. Ela se popularizou no final do século XVI início do XVII como a arma primária de duelo na Europa. Uma arma intrincada e sofisticada, a rapieira é ideal para ensinar os fundamentos de esgrima como princípios de distância, sincronia, interação de lâminas e estratégia de combate.

Embora o épée da esgrima moderna seja derivado da rapieira, a forma do esporte visto hoje na esgrima Olímpica é um tanto distinto das técnicas marciais de duelo ensinadas na Praeliator. A rapieira é uma arma muito mais longa e pesada adequada tanto para corte quanto para estocada. Suas técnicas incluem movimentos circulares, uso da outra mão para defletir e segurar a rapieira do oponente e o uso de várias ferramentas complementares, chamadas de "secundárias", como o broquel e a adaga.

Rapieira Marco Danelli
A Natureza da Rapieira

Os duelistas buscam uma posição em que tenham alavanca e cobertura sobre a rapieira do oponente. Eles usam movimentos rápidos e delicados, deslizando, girando e as vezes limpando a arma do oponente. A ameaça da ponta do oponente é constante, sempre apontada para o seu alvo.

A estratégia fundamental da rapieira na tradição italiana é restringir as opções do oponente por meio de um posicionamento consciente de espada e corpo. A postura da rapieira envolve permanecer de perfil, inclinando-se para frente e para trás nas diferentes guardas, alinhamento adequado da espada e do corpo para se ter a melhor força e ângulo de ataque, e o uso do afundo como movimento primário de ataque. A linha inteira do corpo move a rapieira: a estocada vem do afundo, não do movimento de braço.

Com seu movimento e sua espada, o duelista busca uma posição que impeça o seu oponente de realizar um ataque direto, fazendo-o se mover para uma posição mais vantajosa. Durante esse movimento, o duelista cria uma oportunidade para melhorar ainda mais a sua própria posição ou atacar.

A rapieira é uma excelente professora de princípios de combate, como:

  • Controle de distância e sincronia.

  • Entender como controlar estrategicamente um oponente.

  • Interação de lâminas e sensibilidade – ler o oponente através da sutil pressão nas lâminas.

A rapieira é uma arma excelente para seu condicionamento físico, melhorando:

  • Condicionamento cardiovascular, pela sua demanda atlética.

  • Força nas coxas, pernas, ombro, braços e costas.

  • Ambidestria devido a coordenação com múltiplas armas.

A rapieira é uma arma intelectual que lhe ensinará:

  • Linguagem clara para o entendimento da posição e interação das lâminas.

  • Como controlar tempo e distância, e como conduzir o oponente de forma a obter vantagem.

  • Confiança e atitude.

A História da Rapieira

As cidades no fim da Idade Média e Renascença cresceram rapidamente, tumultuadas e cheias de pessoas de todos os lugares. A violência acontecia com frequência, e as pessoas carregavam armas para se proteger. Em meados do século XVI, uma nova prática (socialmente aceita) surgiu para resolver as disputas civis – o duelo – com armas especializadas e sistemas de combate voltados para ela. Até esse ponto, as espadas mais comumente carregadas pelos civis eram as spadas da lato, primeiramente desenhadas para o corte; mas a evolução do duelo transformou essas armas em espadas mais longas, com lâminas mais finas e com guardas complexas para proteger a mão. Hoje em dia, nos referimos a essas espadas como rapieiras. Embora não haja uma clara definição de rapieira, nem um marco histórico designando em que ponto a rapieira evoluiu da espada de lado, as espadas especializadas em duelos, claramente diferentes das outras, se tornaram mais comum na segunda metade do século XVII e permaneceram em uso até o início do século XVIII.

 

Além do seu uso como arma de duelo, a rapieira carregava uma função social importante na Europa Moderna. Qualquer cavalheiro de prestigio vestia uma rapieira como parte do seu traje oficial: um símbolo básico de seu treinamento marcial e sua prontidão para engajar em duelos, caso a necessidade surgisse. Essa prática estava dentro dos limites aceitos pela sociedade, desde que feita por homens de certa classe social.  Outras espadas usadas em guerras – bem como qualquer outro equipamento defensivo quando utilizados na mesma ocasião – indicavam que a pessoa estava buscando confusão nas ruas. Essa prática de carregar rapieiras continuou por cerca de um século.

Na segunda metade do século XVII, os duelos até a morte saíram de moda e deram lugar aos duelos até o primeiro ferimento, isso permitiu que uma forma modificada de rapieira, chamada espadim, a substituísse. Com a maioria dos duelos não sendo mais tão perigosos, as guardas complexas desapareceram e deram lugar a guardas simples com mínima proteção para a mão. O uso dessas espadas se deu da mesma forma, até meados do século XVIII, quando seu uso formal saiu completamente de moda.

Embora os trabalhos do mestre bolonhês Achille Marozzo (1484-1553) tenham grande influência no desenvolvimento do sistema de combate da rapieira italiana, o primeiro trabalho que muitos consideram ser significantemente dedicado à rapieira é o Trattato di Scientia d’Arme con un Dialogo di Filosofia de Camillo Agrippa (1553). Esse trabalho estabelece o modelo de sistema de combate com as quatro guardas conhecidas no combate com rapieira e a técnica afundo. O trabalho de Agrippa também inclui uma grande quantidade de teoria de esgrima baseada em princípios matemáticos e geométricos. Na virada do século XVII, os sistemas de combate com rapieira estavam bem estabelecidos, e outros mestres como Salvator Fabris (1544-1618) e Ridolfo Capoferro (1610) continuaram elaborando as técnicas e teorias estabelecidas por Agrippa. A influência deles não se fez unicamente na esgrima italiana clássica, pois como alguns desses mestres viajaram para outros lugares da Europa, eles também estimularam o desenvolvimento de sistemas de combate da rapieira em outros países.